Roda de conversa sobre gênero e sexualidade na Unidade de Saúde da Família em Camaragibe Copy
Imaginação e educação em saúde sexual
Imaginação e educação em saúde sexual

Luís Felipe Rios

Professor do PPG-Psi UFPE

Coordenador do LabEshu

Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq


Conforme Vygotsky (2009), psicólogo russo que fez muitas contribuições para o campo da educação, a imaginação é uma função psicológica superior muito importante para a aprendizagem e criação. Mais recentemente, os estudos de Zittoun e Cerchia (2013), Moutinho, Breckenfeld e Laurendon (2021) dentre outros, trouxeram instigantes perspectivas, reavivando a discussão sobre imaginação e como potencializar seus efeitos nas estratégias de ensino/aprendizagem.

A imaginação ocorre sempre que nos desprendemos da realidade do aqui e agora e realizamos um passeio mental pelo passado, futuro ou por uma dimensão atemporal. No primeiro caso, reavivando memórias articuladas por questões e emoções do presente; no segundo caso, projetando para o futuro, tentando produzir imagens mentais que respondam à seguinte questão: “e se isso ocorrer de tal ou qual modo?”. No terceiro caso, a pessoa é levada ao tempo mítico ou imemorial, que, para alguns grupos culturais, é o tempo habitado pelas divindades e outros seres sobrenaturais, fonte de todas as coisas.

Quase sempre o processo imaginativo articula as quatro dimensões temporais, tendo no presente o gatilho que faz o processo imaginativo ser iniciado, permitindo vivências subjetivas que vão além do que é experienciado nas interações do momento.

Sublinhemos que a imaginação não ocorre no vazio. Ainda que inovações possam acontecer, a mente precisa de experiências culturais internalizadas que sirvam de matéria para operar. E, sim, é possível imaginar coletivamente, momento em que experiências são compartilhadas e podem passar a alimentar, também, processos imaginativos pessoais.

No campo da sexualidade, John Gagnon (2006) fala da importância do “ensaio interno” na aprendizagem dos roteiros sexuais, utilizados para guiar as interações. Assim, usualmente, antes das pessoas terem as primeiras experiências sexuais concretas, elas imaginam como estas seriam, a partir do que conversam ou escutam de outras pessoas, do que assistem na TV, cinema ou teatro, do que veem e leem em revistas e livros.

Esse conjunto de experiências com o sexual produzirá memórias que serão a matéria para a imaginação operar. Mas a imaginação não se restringe aos preparativos para a “primeira vez”. A cada dia, as experiências narradas por outros ou vividas em primeira pessoa são utilizadas para alimentar fantasias desejantes, masturbações, preparar estratégias de conquista e, dentre muitas outras modalidades de vivências sexuais imaginativas, avaliar se é necessário usar algo para se proteger de infecções sexualmente transmissíveis ou evitar uma gravidez em um encontro por acontecer ou em andamento.

É por isso que, no campo da saúde sexual, a pós-pornografia é um recurso importante para alimentar a imaginação. Muitos roteiros sexuais são incorporados por meio da pornografia que, certamente, do mesmo modo que os romances e as telenovelas, reproduzem em suas narrativas opressões de sexo-gênero, sexualidade, raça, classe e outros (Dyer, 1985; Gagnon, 2006). A pós-pornografia pretende questionar tais marcações opressivas, usando do mesmo regime imagético (Sarmet, 2014), bastante carregado de estímulos que facilmente despertam memórias emocionais, como o tesão, guardadas nos corpos (Dyer, 1985; Rios, 2024).

Entendemos que as estratégias de informação, educação e comunicação em saúde, especialmente em saúde sexual e reprodutiva, devem recorrer a imagens e conceitos que ajudem pessoas e grupos a se imaginarem em contextos de risco e em contextos mais seguros, produzindo reflexões rumo à mudança. Como sugerem Zittoun e Cerchia (2013), estratégias que permitam potencializar a “imaginação como expansão da experiência”.


Referências


Dyer, R. Male Gay Porn: Coming to Terms. Jump Cut: A Review of Contemporary Media, [S. l.], v. 30, n. 1, p. 27-29, 1985. Disponível em: https://www.ejumpcut. org/archive/onlinessays/JC30folder/GayPornDyer.html. Acesso em: 18 out. 2022.

Gagnon, J. Uma interpretação do desejo: ensaios sobre o estudo da sexualidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.

Moutinho, K.; Breckenfeld, T. F. M.; Laurendon, C.E.M. Imagining and Remembering in an Educational Context: An Exploratory Study. In: Lyra, M.C. ; Wagoner B. ; Barreiro A.. (org.). Imagining the Past, Constructing the Future. 1 ed. Switzerland: Springer, 2021. p. 31-45.

Sarmet E. Pós-pornô, dissidência sexual e a situación cuir latino-americana: pontos de partida para o debate. Periodicus, v. 1, n. 1, p. 258-276, 2014.

Vygotsky, Lev. S. Imaginação e criação na infância: ensaio psicológico. Apresentação e comentários de Ana Luiza Smolka. Tradução de Zoia Prestes. São Paulo: Ática, 2009.

Rios, L. F. Pós-pornografia gay e educação em saúde sexual: Notas sobre a experiência de produção de materiais de prevenção do HIV para gays e outros homens que fazem sexo com homens. Revista Brasileira de Estudos da Homocultura, v. 7, p. e15839, 2024.